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A Infância 

O primeiro estádio da vida humana é a infância. Desde o nascimento a criança transforma, toca e acarinha a vida dos que a rodeiam. Educar uma criança é um desafio permanente, satisfazer as necessidades de um ser que não consegue falar nos primeiros meses de vida e que comunica através de sorrisos, choros e expressões faciais constitui um desafio sensitivo e intelectual para os pais que estão atentos a todos os sinais que o bebé transmite. 

A criança à medida que atravessa os anos da infância desenvolve aptidões e capacidades e vai tornando-se mais autónoma nas atividades quotidianas. Este processo é moroso e cada conquista do menino ou da menina é um momento de felicidade para os pais. 

As crianças desenvolvem-se de formas diferentes e com ritmos descontínuos especialmente nos primeiros anos de vida. Cada uma tem o seu tempo próprio para desenvolver-se a vários níveis: físico, intelectual e emocional. A diversidade de estímulos impulsiona-a a atingir um nível elevado de entendimento e maturação da informação que está ao seu dispor. Existem surtos de crescimento que são notórios em alguns momentos e outras fases de abrandamento. Este processo é perfeitamente normal e prende-se com factores como a nutrição, os estímulos aos quais está exposta no seu dia-a-dia, se frequenta ou não uma creche ou jardim-de-infância, se os pais ou familiares são interativos e se exploram as suas potencialidades através dos diálogos, e dos jogos lúdicos.  

Não podemos dissociar a criança da realidade que a rodeia. Os miúdos que nascem numa ilha irão sofrer determinadas influências que os outros meninos que vivem em grandes cidades não sofrerão. Assim, para o entendimento do estudo sobre as crianças devemos considerar factores geográficos, económicos, sociológicos, psicológicos, etnográficos e educacionais. Estas ciências em muito contribuem para o entendimento dos pequenos humanos que desde o momento que nascem constituem um desafio para os pais, para os psicólogos, para os educadores, para os professores e para os pediatras. 

A sociologia da Infância que começou por ter maior impacto nos anos trinta, veio a desenvolver-se mais efetivamente a nível mundial com o pensamento revolucionário que as crianças são atores sociais perfeitos (Ana Santana). Deste modo, elas deixam de ser recetores passivos de informação e passam a ser ativas e participativas nas decisões dos adultos. É Importante para elas compreenderem que fazem parte de um todo e que elas podem e devem manifestar as suas vontades, desejos e opiniões e que estas devem ser tratadas com respeito e aceites pelos adultos. Ajuda-las a fundamentar as ideias faz parte do processo de desenvolvimento emocional e cognitivo. 

A criança partilha as suas descobertas com os adultos mas também com os seus pares. Deixam de ser meros receptores das ideias dos mais velhos e passam a ser agentes ativos na sua própria aprendizagem e crescimento. Alguns autores defendem que a sociologia “deve englobar não somente as acomodações e interiorizações vigentes nos mecanismos da socialização, mas igualmente os sentimentos de posse, as recriações e as multiplicações perpetradas pelos que se encontram no estágio infantil” (Ana Santana).  

Mauss é uma importante referência no estudo da sociologia e no célebre Ensaio Sobre a Dádiva afirma que “a sociologia é como a psicologia humana, uma parte da biologia que é a antropologia, isto é, o conjunto das ciências que consideram o homem como ser vivo, consciente e sociável”. Deste modo, a criança é um ser social desde que nasce passa a interagir com o mundo circundante. Ela escuta e reage aos estímulos externos e expressa emoções de satisfação ou de insatisfação em relação aos estímulos a que é submetida. Pelo que se deve entender que a “sociologia é exclusivamente antropológica” (Mauss, 2003, 319).  

Mais tarde nos anos oitenta, outras perspetivas, outras visões sobre a influência destas ciências na vida humana tornaram possível visionar a infância enquanto estágio fundamental da existência e como um factor fundamental na arquitectura social. As crianças que eram até à época consideradas como seres apenas biológicos e psíquicos, seres comandados e manipulados pelos adultos nas vivências sociais dos adultos, nos diferentes espaços sociais da vida humana. A infância deixou de ser visionada exclusivamente como uma condição natural do desenvolvimento humano. 

A distinção entre a infância e os outros estádios da vida humana está relacionada com factores culturais, sociais e económicos. A interligação destes valores vai permitir a existência de diferentes infâncias marcadas por contextos específicos onde a criança está inserida. Assim sendo, na ilha da Madeira os meninos vão experienciar infâncias diferentes dependendo do lugar onde nascem, da condição social da família, da época em que nascem e do tipo de interação que têm com os adultos. Uma criança que nasce numa zona rural tem menos possibilidade de interagir em contexto social com outros meninos da mesma idade do que uma criança que nasce na cidade do Funchal e aos dois ou três anos frequenta um infantário e começa a interagir socialmente com outros meninos e com outros adultos que não pertencem à família. Entendemos por socialização “ o processo através do qual a criança desenvolve hábitos, competências, valores e motivos que os tornam membros responsáveis e produtivos da sociedade. A obediência às expetativas parentais é o primeiro passo no sentido da obediência às regras sociais.” (Anabela Fernandes) Deste modo, os pais e a família são os primeiros modelos de socialização da criança. As normas, as regras são interiorizadas e ela começa a obedece-las não porque será recompensada se agir corretamente ou punida se agir erradamente mas porque o processo de socialização foi feito correctamente e a criança consegue aplicar as regras sociais aplicando-as sempre que necessário. “Algumas crianças internalizam as regras sociais mais rapidamente do que outras. O modo como os pais vivem o seu trabalho, conjuntamente com o temperamento da criança e a qualidade da relação entre a figura parental e a criança podem ajudar a predizer o quão difícil ou fácil será socializar a criança”(Anabela Fernandes). O processo de auto-regulação de uma criança não é igual para todas e é moroso. “Na maioria das crianças o completo desenvolvimento da auto-regulação demora pelo menos 3 anos”(Anabel Fernandes).  

Nas zonas rurais este processo não obedece às regras sociais. Os meninos não socializam fora do ambiente familiar isto porque as famílias são grandes e o primeiro impacto social acontece entre irmãos e primos. Os pais, são pessoas com pouca instrução e com pouca educação e o saber que passam aos filhos é sobretudo baseado na realidade quotidiana. A criança do campo cresce num contexto social fechado e com pouco acesso a brinquedos educacionais e pouco contacto com outros meninos da mesma idade. Ela tende a não ser sorridente, a não ter desenvoltura na fala e o seu mundo fica limitado à realidade da vida dos pais. São meninos que crescem descalços à berma da estrada e que brincam com a terra, com peões, com joeiras, com bonecas de trapo e com carrinhos de cana feitos à mão.  

É nos espaços educacionais onde a formação tem início. A perspetiva pedagógica consolidando-se através de um conjunto de factores históricos, políticos, sociológicos e antropológicos inerentes aos conceitos de infância. 

Uma Pedagogia da Infância aceita que toda a ação educativa exige considerar as crianças e os contextos socioculturais que definem a infância. Deste modo, a criança madeirense cresce e desenvolve-se num ambiente ilhéu o que a limita em diversos aspetos. Todos os meninos têm um papel social, uma ação social. Eles são portadores da sua própria história e desde pequenos contribuem para a construção dessa mesma história de vida. Relacionam-se com muitas pessoas e estabelecem relações múltiplas de amizade com os seus pares e com os adultos que fazem parte da vida deles. Os meninos são profundamente afetados pela sociedade onde vivem.  

O meio ambiente, é um factor com grande poder no desenvolvimento da criança. Estes pequenos seres crescem limitados aos espaços onde os adultos os levam. Assim, a criança que tem oportunidade de viajar, de experienciar outras culturas, de interagir com outros meninos de nacionalidades diferentes, de outras etnias, de outras religiões e de conhecer outros espaços físicos é capaz de perspetivar a realidade de uma forma diferente. A visão do mundo aos olhos de um menino baseia-se no conhecimento que ele tem, que lhe é oferecido através das experiências dentro e fora da ilha. A religião, os valores morais, a educação dada pelos pais são outros factores que não podem ser negligenciados quando falamos no desenvolvimento da criança. 

Numa pedagogia centrada na criança, esta tem um papel ativo na sua própria formação. Ela passa a ter uma postura participativa nos projetos educacionais que são estruturados tendo como base a democracia, a diversidade, a participação social considerando todas as práticas sociais que privilegiam as relações sociais entre todos os elementos envolvidos no desenvolvimento da criança (educadores, pais, avós, familiares e professores) tendo como um princípio fundamentalista: a cultura como propriedade intelectual da criança. Deve ser-lhe proporcionada experiencias com significados individuais e coletivos, onde ela possa ter interações com outras crianças através de jogos lúdicos, de projectos que envolvem os meninos e a família e de aprendizagens significativas para o desenvolvimento motor e intelectual dos mesmos.  

O tempo escolar está relacionado com a planificação feita no sentido de fazer a criança evoluir de forma linear no processo de aprendizagem. Mas, a aprendizagem faz-se através de objetivos personalizados. Basicamente, espera-se que os alunos se tornem bons cidadãos. Na escola de hoje, o aluno não estuda para aprender. Ele estuda apenas para passar nos exames. 

A escola deve promover uma educação democrática em que o aluno seja participativo no próprio processo de aprendizagem, assim como a família, uma instituição que aceita a diferença, onde haja amor e respeito. Deve adaptar a realidade pedagógica/cultural e social dos alunos ao contexto escolar. Pretende-se sobretudo quebrar a inércia do sistema educativo. 

A família é o princípio de tudo! Os protagonistas da educação são os pais. Sem os pais e sem as famílias não pode haver projeto educativo. É determinante para a formação do Ser humano o desempenho dos pais. Antigamente, os miúdos aprendiam com os pais os afazeres diários, aprendiam as coisas básicas do dia-a-dia.   

A sala de atividades é um elemento fundamental no processo de aprendizagem, deve ser construída em cooperação com a educadora e com as crianças. A organização da sala espelha as intenções pedagógicas do educador. Os materiais devem estar organizados de forma aos meninos terem acesso aos mesmos desenvolvendo assim competências de autonomia e responsabilidade. 

A escola antiga assentava em pressupostos educativos díspares daqueles que hoje se pressupõe como sendo os mais adequados. A necessidade da criança ter uma perceção da vida real tal como ela é tornou-se fundamental para o desenvolvimento cognitivo da mesma. Pretende-se agora que ela explore o mundo que a rodeia para adquirir uma perceção real da vida. 

A escola deve reservar um espaço para educar a emoção dos alunos para que a própria escola seja considerada como um espaço de crescimento pessoal. Na antiga Grécia, em Atenas, a aprendizagem era feita através da partilha de conhecimentos sem nenhuma obrigatoriedade. Aprendia-se pelo prazer de obter conhecimento e não mais do que isso. 

O conceito de escola tal como o conhecemos hoje nasceu na Prússia, no século XVIII com modelos elitistas com divisão e estratificação de classes sociais. O positivismo estava na base da aprendizagem.  

Hoje em dia, a educação é mais um processo administrativo do que educativo, uma cadeia de montagem de crianças na aprendizagem. É um processo mecânico. A realidade é que um professor/educador tem cerca de trinta crianças dentro de uma sala de aula e tem de dar atenção a todas elas, responder às suas necessidades físicas, emocionais e psicológicas atendendo às particularidades e singularidades de cada uma delas. Existem regras que têm de ser cumpridas, uma conduta social a ser incutida em cada criança com o objetivo de criar uma consciência social.  

 

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